Congregação Israelita Beit Itabuna - BA: De Recife a Manhattan "A saga desses judeus..."

De Recife a Manhattan "A saga desses judeus..."



De Recife a Manhattan

Como um grupo de judeus expulso de Pernambuco em 1654 ajudou a inventar o capitalismo nos Estados Unidos


Em que outra cidade do planeta alguém abre uma firma com o nome de “Shleppers” (carregadores, em tradução do idiche) e todo mundo sabe que se trata de uma empresa de mudança? Henri Sobel, presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista, costuma recorrer a essa troça para definir a influência dos 2 milhões de judeus em Nova York. Os milhões, lá atrás, há exatos 350 anos, eram apenas 23 que tinham sido expulsos de Recife. Em 7 de setembro de 1654, esses excluídos desembarcaram em Nova Amsterdã, então entreposto da Companhia das Índias Holandesas na Ilha de Manhattan – ali ajudariam a erguer a metrópole, a fundar a Bolsa de Valores, a dar nova cara ao comércio. Tinham deixado o Brasil em 16 naus, rumo a Amsterdã. No caminho, um dos navios foi saqueado. Detidos na Jamaica, os viajantes foram resgatados por um pirata francês. Os quatro casais, duas viúvas e treze crianças chegaram aos EUA sem nada. Fugiam dos portugueses que, em Pernambuco, venceram os 24 anos de domínio holandês e impuseram a perseguição a uma comunidade que abrira a primeira sinagoga das Américas num pedaço de chão que chamaram Rua dos Judeus, entre 1636 e 1654, e hoje é a Rua do Bom Jesus.

Sem espaço no Brasil para exercer o judaísmo – apenas os marranos, como eram chamados aqueles judeus que se declaravam conversos ao cristianismo, poderiam sobreviver – os 23 sefarditas decidiram enfrentar o mar e o futuro. Em Nova York, fundaram uma sinagoga e, de certo modo, um modo de vida na cidade. Ajudaram, sem exagero, a inaugurar também o capitalismo americano. Esses três séculos e meio de história começam a ser celebrados com pompa nos EUA. É um pouco de Brasil numa porção fundamental da sociedade americana. O Centro de História Judaica de Nova York abrigará, até dezembro, a mostra “Pernambuco: Gateway to New York” (Pernambuco: Portão para Nova York), com fotos e montagens em 3-D, organizada pelo Arquivo Histórico Judaico de Pernambuco. A Biblioteca do Congresso, em Washington, apresentará uma coletânea de documentos raros de seu acervo a respeito desses 350 anos dos judeus na América. Um livro, já lançado no Brasil, A Ilha no Centro do Mundo, de Russell Shorto, narra a épica trajetória da Manhattan holandesa.

Há mais: do lado de cá dessa conexão, a cineasta pernambucana Kátia Mesel dá os retoques finais no
longa O Rochedo e a Estrela. Rochedo de Israel é o nome, em português, da primeira sinagoga do Novo Mundo, a Zur Israel, no centro de Recife. O filme relata
os anos de judeus e cristãos-novos durante o governo
do holandês Maurício de Nassau, até a reconquista portuguesa e o exílio semita. Kátia tem um aforismo curioso no cruzamento dos dois mundos, o de ontem
e o de hoje: “No século XVII, o Recife estava para Nova York assim como Nova York está para o Recife no século XXI”. A capital pernambucana era a cidade mais importante do conti-nente, devido ao seu porto acolhedor e seguro, a proximidade com a Europa e ao comércio de açúcar e pau-brasil, por meio da poderosa Companhia das Índias Ocidentais.
“A saga desses judeus brasileiros rumo a Manhattan é um drama de intolerância”, diz a historiadora paulista nascida na Polônia, Anita Novinsky, do Laboratório de Estudos da Intolerância da USP. “Foram expulsos pelo anti-semitismo português, tiveram vida dura com o governador de Nova Amsterdã, a Nova York de então, Peter Stuyvesant, e só venceram porque transformaram suas vidas em sinônimo de luta pelos direitos humanos, pela liberdade da palavra e pela liberdade do comércio.” Fundaram a Congregação Shearit Israel, a primeira estabelecida nos EUA, e a transformaram num centro de idéias revolucionárias. Muitos dos membros da comunidade, é verdade, passaram a traficar escravos da África negra – muitos outros, cabe ressaltar, gritaram pela abolição. Há, entre eles, heróis da guerra de independência de 1776. Além dos três mercadores, descendentes daquele grupo pioneiro – Benjamin Mendes Seixas, Ephraim Hart e Alexander Zuntz – que foram os pais da Bolsa de Valores de Nova York. “Os judeus expulsos do Brasil abriram uma sinagoga nos EUA, difundiram idéias de livre pensar e, no limite, inventaram uma metrópole”, diz Henri Sobel. “Pode-se dizer que a coragem deles diante da adversidade foi a gênese da moderna Nova York.” 

Fonte: Isto é - dinheiro  15/09/2004

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